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O fenômeno se repete há quase dois meses. Se é noite de quinta-feira, a internet para: é dia de “The Voice Brasil”, programa em que calouros são treinados, julgados e eliminados pelos cantores Claudia Leitte, Carlinhos Brown, Daniel e Lulu Santos.

Do microfone, saem clássicos do cancioneiro popular entoados por vozes afinadas e impostadas, que, por usar de artifícios como técnicas do R&B à la Whitney Houston mesmo em sambas de João Gilberto, soam iguais.

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O vencedor leva R$ 500 mil e um contrato com uma gravadora. Até a final, assiste-se às performances entremeadas por relatos de histórias de superação e muitas lágrimas. Nesta quinta, um adicional: começa a fase ao vivo.

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O programa, uma franquia americana que tem sua segunda temporada brasileira transmitida pela TV Globo desde 3 de outubro, virou uma febre nacional.

Desde 1º de outubro até ontem, foram publicados 1,1 milhão de tuítes sobre o programa, de acordo com a Tribatics, serviço de análise do microblog. O primeiro dia do “The Voice Brasil” teve o maior pico de tuítes por minuto (TPM), com 7,5 mil, contra uma média de 2,8 mil da final da primeira edição.

Dados do Ibope confirmam que “The Voice” é um hit.

Na semana de 4 a 10 deste mês, teve o terceiro maior público da emissora em SP, com 26 pontos (cada ponto equivale a 62 mil domicílios da Grande SP), média que mantém desde a estreia, atrás de “Amor à Vida” (37) e à frente do “Jornal Nacional” (25).

O “Big Brother Brasil 13″ teve média de 24 pontos.

O programa não traz um formato novo, uma vez que shows de calouros vêm sendo reeditados desde os primórdios da TV brasileira. Então, o que explica a febre?

“[São] tantos bons artistas. A banda e os produtores musicais são excelentes, [há] um superpalco com estrutura de cenário e luz. Está ocupando o lugar dos saudosos festivais”, diz Ellen Oléria, vencedora da primeira edição.

Oléria gravou um álbum neste ano e mantém uma agenda de shows que inclui o eixo Rio-SP, além de cidades do Piauí e do Maranhão. “‘The Voice’ foi um portal mágico que se abriu para mim.”

Como Oléria, outros ex-calouros seguiram carreira. No Brasil, Thiaguinho, ex-Exaltasamba e ex-”Fama” (Globo), talvez seja o exemplo mais marcante. A maioria, no entanto, não deslancha.

PASTEURIZAÇÃO

O produtor musical Carlos Eduardo Miranda diz que a escolha majoritária por um estilo exagerado é o maior complicador das carreiras.

“Não é errado, é característico desse tipo de programa. Mas é um tipo de canto que não tem muito espaço no mercado. No Brasil, não se canta desse jeito em lugar nenhum. Talvez, na igreja”, diz.

Para ele, o estilo que se vê na TV é como um solo de guitarra: “Ninguém aguenta o dia todo no rádio”.

Nelson Motta, produtor e escritor, afirma que a popularização do R&B se dá pelo exibicionismo: as firulas, o fraseado sinuoso e os vibratos funcionam para “mostrar serviço com a voz”.

“Se alguém vai cantar uma bossa nova seca ali, gilbertiana, não vai dar certo.”

Para ele, cantoras como Nara Leão e Fernanda Takai não passariam no programa.

Para ele, é preciso de muito mais que a voz para dar certo –a equipe com quem se trabalha, o repertório e as escolhas importam muito.

Mas, segundo a Globo, nada além da voz conta –nem o perfil, nem a biografia. “Tudo é decidido apenas pela qualidade vocal. Em nenhum momento analisamos o candidato por qualquer outro fator”, diz o diretor Boninho.

O problema aí ocorre quando calouros adotam um mesmo estilo e todas as vozes passam a soar iguais.

Sam Alves, participante desta edição do programa, rebate a tese e diz acreditar na individualidade dos participantes. “Podemos ter as mesmas influências, mas cada um tem algo diferente”, diz.

Para André Midani, lenda da produção musical que presidiu a Warner nos áureos tempos da indústria fonográfica, esse é justamente o X da questão. “A força imitadora nunca se superpõe a força criativa. Eles são imitadores de imenso talento.”